Acompanhou todo o processo de reconstrução do Coliseu Micaelense, na ocasião quais foram os maiores obstáculos/desafios que tiveram de ultrapassar?
Desde logo, posso e devo testemunhar que o grande mérito da reconstrução da nossa maior e mais emblemática casa de espectáculos pertence inteiramente à senhora Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada e Presidente do Conselho de Administração da Sociedade Coliseu Micaelense. Foi a Dra. Berta Cabral que concebeu pessoalmente e liderou directamente todo o processo de recuperação e revitalização deste património único nos Açores, desde o compromisso eleitoral até à inauguração da obra, passando pela aquisição do edifício e pela estratégia da intervenção. Portanto, quando agora assinalamos o quinto aniversário da reabertura do Coliseu, é da mais elementar justiça reconhecer e enaltecer o seu contributo individual para a concretização de um sonho colectivo.
Na verdade, foi graças à sua determinação e competência que conseguimos vencer sucessivos obstáculos: as dúvidas de muitos, as críticas de alguns, a aquisição das acções, o estado das instalações, a complexidade do processo, os cuidados do projecto, os custos da empreitada, o financiamento da obra. Posso mesmo revelar que a Dra. Berta Cabral acompanhou a recuperação do Coliseu como se da sua casa se tratasse, tal era a atenção que dedicava tanto à grande intervenção das estruturas como ao pormenor da escolha dos materiais.
O grande desafio que se nos colocava, afinal plenamente conseguido por via desse mesmo empenhamento, foi o de conseguir, ao mesmo tempo, respeitar o património que a história nos legou e garantir a funcionalidade que a modernidade nos impõe. Daqui resultou o velho/novo Coliseu, que a todos orgulha, como sendo um bom exemplo de respeito pelo passado, responsabilidade presente e visão de futuro.
Para o renascimento do Coliseu Micaelense contou a Dra. Berta Cabral com duas ajudas especiais: o Eng. José Medeiros na execução da empreitada e eu próprio na implementação da actividade. Mas o facto histórico de devolver aos Açores um património quase irreversível de 90 anos de cultura fica ainda a dever-se a tantos outros colaboradores anónimos e, sobretudo, à adesão entusiástica da população de Ponta Delgada.
Como foi abraçar o desafio de ser o Director do Coliseu após a sua reabertura, quando todos esperavam que uma lacuna existente fosse suprida?
Fui nomeado Director-Geral da Sociedade Coliseu Micaelense a 1 de Novembro de 2004, três meses antes da reabertura festiva da casa de espectáculo a 30 de Janeiro de 2005, com a responsabilidade de definir e dirigir o funcionamento da empresa e de conceber e coordenar a sua actividade sócio-cultural.
A recuperação dos Grandes Bailes de Carnaval do Coliseu Micaelense foi o nosso desafio mais imediato e representativo, logo após a Gala de Reabertura e ainda antes do espectáculo inaugural com o Ballet Clássico de Moscovo. Cumprido o objectivo das instalações, tratava-se agora de fazer renascer a “imagem de marca” da casa que dominava a memória colectiva de sucessivas gerações micaelenses. E, de facto, o velho Carnaval do novo Coliseu foi inexcedível e emocionante. Reconfirmámos a aposta nos tradicionais Bailes de Gala e avançámos para outras experiências bem sucedidas com crescente adesão popular, como os Bailes de Fantasias, a Festa Branca, o Baile de Halloween e, sobretudo, o Baile de Reveillon. O Coliseu é a maior, a mais bonita e a mais animada pista de dança dos Açores.
Mas o Coliseu Micaelense é sobretudo um palco dinâmico, polivalente e representativo, com sucessivos eventos regionais, nacionais e internacionais que exercitam a versatilidade singular das suas instalações e potenciam a vocação heterogénea do seu público. O nosso principal objectivo foi afirmar o Coliseu como uma casa ao serviço de todos os públicos, com qualidade, quantidade e diversidade, em espectáculos de música, dança, teatro e circo, mas também através de bailes, banquetes, congressos e feiras.
Nos quatro anos em que dirigi o Coliseu entreguei-me de “corpo e alma” a este projecto tão desgastante como estimulante. Por isso, quando a 1 de Novembro de 2008 reassumi as funções de chefe de gabinete da presidente da Câmara Municipal, fi-lo com a consciência de ter cumprido, tanto quanto possível, uma missão sempre inacabada. E hoje, já Vereador da Cultura e Acção Social de Ponta Delgada, acumulando embora a responsabilidade de presidente da comissão executiva da Sociedade Coliseu Micaelense, não escondo manter ainda, certamente para sempre, uma especial ligação afectiva a esta casa de espectáculos. Só espero, portanto, que a minha passagem pelo Coliseu tenha correspondido minimamente às legítimas expectativas do grande público tanto quanto foi marcante para mim próprio.
Que balanço faz, passados 5 anos, da aposta feita pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, versando o Coliseu Micaelense?
Cinco anos passados sobre a reabertura do Coliseu Micaelense, só podemos concluir que a aposta feita pela Câmara Municipal de Ponta Delgada valeu a pena. Em cinco sucessivas programações anuais – a última das quais já sob a direcção operacional de Ricardo Pereira – o Coliseu promoveu ou acolheu cerca de 600 eventos que mereceram a participação ou a assistência de mais de 400.000 pessoas! Trata-se de um registo, sem precedentes e sem paralelo, de aproximadamente 120 eventos por ano, com uma adesão média de quase 700 pessoas por evento.
Daqui se conclui que o Coliseu constitui um poderoso instrumento de dinamização cultural ao serviço de Ponta Delgada, de São Miguel e dos Açores, afirmando mesmo a nossa cidade no mapa nacional das principais casas de espectáculos. Devemos todos orgulharmo-nos dessa aposta ganha.
De todos os espectáculos qual foi para si o mais gratificante de conseguir produzir no Coliseu Micaelense?
Guardo boa memória de grandes espectáculos internacionais que conseguimos trazer ao Coliseu Micaelense, em apenas cinco anos, graças ao apoio dos patrocinadores e à adesão dos espectadores. Por exemplo, o Moscow Classical Ballet, a Orquestra Sinfónica Estatal do Palácio da Música de Kiev, a Orquestra Internacional de Madrid, a Academia de Dança de Pequim, o Novo Circo de Xangai, a Companhia Nacional da Turquia, o Musical da Broadway ou a Orquestra de Strauss, entre outros artistas de renome mundial como o bailarino Joaquín Cortés e os cantores Gilberto Gil, Gal Costa, Martinho da Vila e Simone. Recordo também atracções nacionais como Rui Veloso, Fausto, Sérgio Godinho, Vitorino, Jorge Palma, Kátia Guerreiro, André Sardet, Tony Carreira, Luís de Matos, Fernando Mendes, Gato Fedorento, D’ZRT, Xutos & Pontapés ou Delfins.
Mas tive o gosto especial de produzir uma gala representativa de artistas regionais – desde as orquestras e coros de Ponta Delgada ao grupo de teatro Máquina do Tempo e à companhia de dança de Milagres Paz, passando por Zeca Medeiros, Aníbal Raposo ou Luís Alberto Bettencourt, entre muitos outros – demonstrando afinal que o palco do Coliseu tanto ganha fronteiras externas como valoriza referências locais.
O Coliseu Micaelense tem uma valência muito especial, o seu Museu. Que papel desempenha este espaço e que tesouros tem para revelar a quem o visite?
O Núcleo Museológico do Coliseu Micaelense foi inaugurado a 10 de Maio de 2007, no 90º aniversário da construção do então designado Coliseu Avenida e é hoje a memória pública e perene da maior casa de espectáculos dos Açores. A sua localização privilegiada no último piso da sala interior assegura uma curiosa relação visual entre a memória do espólio e as instalações actuais, que tem vindo a revelar-se especialmente interessante em visitas organizadas de carácter pedagógico.
Da primeira documentação empresarial de Lima Araújo à última projectora cinematográfica de Santos Figueira, passando pelo piano de Teófilo Frazão e pela cenografia de José Vieira, este espaço especialmente dedicado às escolas confirma que o nosso respeito pelo passado é do tamanho da nossa confiança no futuro.
O Coliseu Micaelense é uma referência nos Açores, actualmente, ao nível da programação eclética que apresenta e da sua qualidade. Há um sentimento de dever cumprido?
Mais do que o sentimento de dever cumprido pelo que está feito, temos a consciência da responsabilidade pelo que falta fazer! Os micaelenses podem continuar a contar com o seu Coliseu…
Magda Neto
SABER Açores